Por mais de seis décadas, atravessar a Baía de Guaratuba teve um ritual próprio.
Entrar na fila, aguardar o embarque, estacionar o carro sobre a embarcação e, por alguns minutos, observar a cidade a partir de outro ângulo. Para moradores, turistas e veranistas, o ferry boat foi muito mais do que um meio de transporte: tornou-se parte da paisagem, da rotina e da história de Guaratuba.
Hoje, com a Ponte de Guaratuba já fazendo parte do cotidiano do litoral paranaense, olhar para as antigas balsas é também revisitar uma época que marcou diferentes gerações.
Motoristas ganharam cartão de lembrança: “Última temporada do ferry boat. Guaratuba 1960-2025”Foto: Bem Paraná
Durante muitos anos, o acesso terrestre a Guaratuba era difícil e limitado.
Segundo o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER/PR), antes da implantação do ferry boat, quem precisava viajar entre Guaratuba, Caiobá e outras regiões do Estado enfrentava alternativas pouco práticas. Uma delas era contornar a região por Garuva, utilizando uma estrada de terra que podia ficar praticamente intransitável em períodos de chuva.
Outra possibilidade era realizar a travessia da baía em pequenas embarcações e seguir viagem posteriormente por ônibus.
Esse cenário começou a mudar em 1960, quando foi implantado o sistema de ferry boat na Baía de Guaratuba. A nova ligação ajudou a reduzir o isolamento do município e contribuiu para impulsionar o turismo, o comércio e o desenvolvimento da região.
1ª Balsa de Guaratuba – anos 60Foto: Arquivo da Prefeitura de Guaratuba
Ferry Boat Iguassu – 1966Foto: Acervo da Prefeitura de Guaratuba
Com o passar dos anos, o ferry boat deixou de ser apenas uma solução logística.
As balsas passaram a integrar a própria imagem de Guaratuba.
Para quem morava na cidade, eram parte do caminho para estudar, trabalhar, fazer compras ou viajar. Para quem vinha passar as férias, muitas vezes a travessia representava um dos primeiros sinais de que o destino estava próximo.
Havia quem aproveitasse os minutos sobre a baía para sair do carro, sentir o vento, fotografar a paisagem ou simplesmente observar as embarcações cruzando as águas.
Segundo o DER/PR, o serviço tornou-se também uma atração turística e, durante as temporadas de verão, chegou a transportar mais de 1,5 milhão de pessoas.
1º Carro a embarcar na Balsa – 1960Foto: Acervo da Prefeitura de Guaratuba
O sistema foi sendo modernizado ao longo das décadas.
Um dos marcos ocorreu em 1981, quando entrou em operação o ferry boat Guaraguaçu, com capacidade para transportar até 48 veículos e cerca de 300 pessoas. Posteriormente, embarcações como Nhundiaquara e Piquiri também passaram a fazer parte da travessia.
Quem acompanhou essa história provavelmente guarda na memória diferentes embarcações, mudanças nos atracadouros, temporadas movimentadas e até as longas filas que, durante os períodos de maior fluxo turístico, se tornaram parte conhecida da chegada e da saída de Guaratuba.
E são justamente essas lembranças que hoje ganham outro significado.
Ferry Boat GuaraguaçuFoto: Internacional Marítima
Em 2026, a mobilidade do litoral paranaense viveu uma das maiores transformações de sua história com a inauguração da Ponte de Guaratuba.
Com 1.240 metros de extensão, quatro faixas de tráfego, áreas para pedestres e ciclovia, a estrutura criou uma ligação rodoviária permanente entre Guaratuba e Matinhos, eliminando a dependência histórica do ferry boat.
A mudança é significativa.
Um trajeto que durante décadas dependia de embarque, capacidade das embarcações, condições operacionais e períodos de espera passou a ser realizado diretamente pela ponte. Segundo o Governo do Estado, a nova ligação permite fazer a travessia em aproximadamente dois minutos.
Mas o avanço não apaga o que veio antes.
Pelo contrário: transforma a antiga travessia em patrimônio afetivo de quem viveu aquela Guaratuba.
Ponte de Guaratuba — Foto: Jonathan Campos/AEN
É curioso perceber como algo tão cotidiano pode, de repente, transformar-se em lembrança.
Durante décadas, talvez poucos imaginassem que chegaria o dia em que contaríamos às próximas gerações como era necessário colocar o carro sobre uma balsa para cruzar a Baía de Guaratuba.
As filas nos feriados.
Os primeiros minutos de férias.
O vento durante a travessia.
O barulho dos motores.
As fotografias feitas de dentro da embarcação.
Os encontros inesperados entre conhecidos.
Tudo isso compõe uma memória coletiva da cidade.
Para muitos guaratubanos, a balsa acompanhou praticamente toda uma vida.
(Foto: Roberto Dziura Jr./Governo do Paraná)
A transformação não termina com a construção da ponte.
O Governo do Paraná anunciou que a área anteriormente utilizada pela estrutura do ferry boat, no lado central de Guaratuba, deverá receber um novo complexo náutico.
A proposta prevê a revitalização da região e a criação de uma nova utilização turística e econômica para um dos espaços mais simbólicos da cidade. A previsão divulgada pelo Estado é de que a implantação comece a partir de 2027, por meio de concessão à iniciativa privada.
É quase uma continuidade natural da história: um espaço que durante décadas conectou pessoas pela água deverá permanecer relacionado à vocação náutica de Guaratuba, agora com uma nova função.
Projeto do Complexo náutico de Guaratuba prevê marina com 303 vagas molhadas. (Foto: Divulgação/AEN)
A Ponte de Guaratuba representa desenvolvimento, mobilidade e uma nova etapa para todo o litoral.
Mas o ferry boat continuará ocupando um lugar especial na memória da cidade.
Porque desenvolvimento também é isso: avançar sem perder a capacidade de reconhecer os caminhos que nos trouxeram até aqui.
Quem atravessou a Baía de Guaratuba de balsa certamente guarda alguma história.
Uma viagem de infância, um verão inesquecível, horas de espera em um feriado ou simplesmente aquele momento em que o carro entrava na embarcação e, por alguns minutos, a pressa dava lugar à paisagem.
Hoje, a travessia é outra.
Mas as histórias permanecem.
E fazem parte da história de Guaratuba.
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