Há sabores que contam histórias. No litoral paranaense, um deles nasce entre as folhas da Mata Atlântica, atravessa gerações e carrega consigo a identidade de comunidades que aprenderam a viver em conexão com a natureza.
Estamos falando da cataia, bebida tradicional conhecida popularmente como “uísque caiçara”. Em agosto de 2026, essa manifestação da cultura do nosso litoral ganhou um importante reconhecimento: a Assembleia Legislativa do Paraná aprovou o Projeto de Lei 552/2026, que reconhece a bebida Cataia como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado.
Para nós, que temos nossa história profundamente ligada ao litoral e acreditamos que pertencer a um lugar também significa conhecer e valorizar sua cultura, essa é uma daquelas notícias que merecem ser celebradas.
Cataia, bebida tradicional caiçara do litoral do Paraná
A cataia é preparada tradicionalmente a partir de folhas colocadas em contato com a cachaça, criando uma bebida de coloração e sabor característicos. A planta utilizada nessa tradição é conhecida como cataia ou craveiro e identificada botanicamente como Pimenta pseudocaryophyllus, espécie registrada pelo Instituto Água e Terra do Paraná.
Por João Medeiros – Pimenta pseudocaryophillus
Folhas de Pimenta pseudocaryophyllus, planta utilizada no preparo da cataia
Foi justamente dessa combinação simples — folhas, cachaça e conhecimentos transmitidos entre gerações — que nasceu uma bebida profundamente associada à cultura caiçara.
Segundo a Assembleia Legislativa, o preparo ganhou popularidade especialmente a partir da década de 1980 e passou a ser conhecido como “uísque caiçara”. Com o tempo, a tradição ultrapassou o ambiente doméstico e também passou a movimentar extratores, produtores e comerciantes, além de integrar a experiência turística do litoral paranaense.
No modo tradicional de preparo, as folhas são selecionadas e colocadas em infusão na cachaça. Durante esse período, a bebida incorpora aromas, sabores e características da planta.
Mas reduzir a cataia a uma receita seria deixar de lado justamente sua parte mais valiosa.
Por trás de cada preparo há conhecimento sobre a vegetação local, formas de coleta e maneiras de fazer que foram compartilhadas ao longo do tempo. É essa dimensão cultural — os saberes, os costumes e as relações construídas em torno da bebida — que ajuda a explicar a importância de seu reconhecimento.
Quando falamos em patrimônio cultural imaterial, não estamos falando necessariamente de algo que possa ser guardado em uma vitrine.
Falamos de saberes, práticas, celebrações e tradições que ajudam a formar a identidade de uma comunidade.
É justamente aí que a cataia ganha outro significado.
Sua história está ligada às comunidades tradicionais do litoral paranaense e à relação que elas desenvolveram com o território e com a Mata Atlântica. A própria Assembleia Legislativa destaca essa conexão e reconhece a participação da bebida na economia e no turismo regional.
Preservar essa tradição, portanto, significa também manter viva uma maneira de conhecer e experimentar o litoral.
CataiaFoto: Perla Rios
Existe algo especialmente simbólico no fato de uma tradição ligada a uma espécie da Mata Atlântica receber esse reconhecimento.
O litoral do Paraná é marcado por uma biodiversidade extraordinária e por comunidades que construíram sua história convivendo diretamente com esse ambiente. A cultura caiçara nasce justamente dessa relação entre pessoas, mar, floresta, pesca, culinária, música e modos de viver.
A cataia faz parte desse conjunto.
Por isso, sua valorização também nos convida a refletir sobre a importância do uso responsável dos recursos naturais e da conservação da Mata Atlântica. Cultura e natureza, neste caso, não estão separadas: uma depende da permanência da outra.
Essa visão dialoga com algo em que acreditamos profundamente na Nativa. Desenvolvimento e preservação precisam caminhar juntos para que as próximas gerações também possam reconhecer, viver e contar as histórias que tornam o nosso litoral único.
O reconhecimento da cataia também ajuda a colocar em evidência uma riqueza que muitas vezes está nas pequenas experiências de uma região.
Quem visita o litoral não encontra apenas praias e belas paisagens. Encontra modos de falar, receitas, festas, manifestações artísticas, histórias e tradições que dão personalidade a cada lugar.
Nesse contexto, a gastronomia se transforma em uma porta de entrada para conhecer a cultura local.
A valorização da cataia pode contribuir para ampliar o interesse por essa história, fortalecer o turismo ligado à identidade regional e dar visibilidade a quem mantém esses saberes vivos. A Assembleia Legislativa também aponta a participação da cadeia da cataia na economia e no turismo do litoral.
Gilson proprietário do Restaurante BuccannerFoto: Átila Alberti/ Tribuna do Paraná
Nossa relação com Guaratuba e com o litoral sempre foi construída a partir de algo maior do que a paisagem.
Nós acreditamos em pertencimento.
Em conhecer as histórias de um lugar, respeitar sua natureza, valorizar quem vive aqui e contribuir para que desenvolvimento e qualidade de vida caminhem lado a lado. É esse olhar que orienta nossa forma de pensar os refúgios que construímos e a comunidade da qual fazemos parte.
A cataia representa exatamente essa conexão: uma tradição que nasceu da relação entre pessoas e natureza e que permanece viva porque continuou sendo compartilhada.
Celebrar esse reconhecimento é celebrar também o patrimônio humano, natural e cultural do litoral paranaense.
Porque viver um lugar por inteiro é conhecer aquilo que faz dele único.
Nativa. Onde a vida é mais leve.
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